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Paris é para sempre

Madeleine, Paris.

Madeleine, Paris.

Morei na França durante quase um ano mas só visitei Paris cinco vezes em toda a vida. Pouco. Mas muito. Da primeira à última, dos 14 aos 30, vivi tanta coisa diferente ali, com tanta gente! Minha vó e prima tão amadas, meus melhores amigos, o amor da minha vida. Fui para lá na primavera, no outono, no inverno, agora só falta conhecer Paris no verão.

É difícil escrever sobre Paris. Tentei lembrar como pude de todas as viagens. Da primeira, apenas fragmentos, mas desconfio que o relato completo esteja perdido em um dos meus diários antigos. Se encontrar algo mais do que uma lista de obras e artistas (mania que tinha na época), prometo transcrever os trechos aqui. Reservei um post especial para a última visita, com Tomás, em fevereiro de 2012 (que você pode ler aqui). Ainda transbordo de felicidade pensando que ele conheceu a França comigo, seis meses depois de nosso primeiro encontro. Fizemos um pouco de tudo, e mais. Os museus, a vida noturna, uma Versailles deslumbrante em pleno inverno, ópera na Madeleine, Beckett no teatro, vinhos, champanhes, Marais, bistrôs de bairro, Tour Eiffel à meia noite. Dá até para dizer que as visitas anteriores me conduziram a esta.

***

Conheci Paris aos 14. Lembro que chegamos cedo ao hotel e nosso quarto ainda nem estava liberado. Amontoamos nossas bagagens no alto de uma estante, lá na recepção mesmo, e seguimos para o Louvre. Minha vó, prima e eu estávamos exaustas, e ficamos naquela fila interminável, de frente para a pirâmide, comendo os chocolates que havíamos comprado em Londres. Era abril mas estava chovendo, e por muito tempo lembraria de Paris assim. Naquele dia, a Monalisa não me impressionou muito, mas a Grande Esfinge do Tânis, sim. Lembro que minha vó e eu nos sentamos e ela me contou essa história. Pensei em Sófocles e Édipo e pensaria neles depois, ao ler Cocteau. Queríamos ver a Vitória de Samotrácia e a Vênus de Milo, preferidas absolutas da minha avó e, mesmo com toda aquela expectativa, toda aquela antecipação — o grande corredor para uma, a grande escadaria para a outra — fiquei encantada. Até hoje, dão frio na barriga. Como Paris.

Ficamos apenas três dias na cidade. Minhas memórias são inexatas. Caminhando ao longo da Champs Elysées, jantando num restaurante perto do hotel, comprando baguetes na padaria, falando em francês nos pontos turísticos. A Notre Dame. A Queda da Bastilha. O jardim de Versalhes. Um sorvete de bolinhas coloridas comprado na banca de revista. Rodin e seu Beijo, seu Balzac, seu Pensador. Ah, a Place Vendôme! A Tour Eiffel. Os árabes. Os croissants.

Voltei no outono, em outubro, em um dos dias mais bonitos que já vivi na cidade luz. Tomei o TGV de Montpellier e cheguei mais ou menos umas cinco horas da tarde. Meu melhor amigo chegaria de Genebra à noite, e eu tinha o fim de tarde livre. Nem passei no hotel, fui direto da estação para o Pont Neuf e percorri a Rive Gauche com uma lista que outro amigo havia feito especialmente para mim, com os restaurantes, bares, livrarias e espaços não-demarcados que eu precisava conhecer. Ele me disse, por exemplo, que eu deveria ler no Palais Royal. Passei vários dias procurando onde exatamente, até que ele me esclareceu que o seu local preferido não era um lugar.

Andei às margens do Sena, parando em cada uma das barracas dos chamados “bouquinistes” para ver os livros ou os cartões-postais da Nouvelle Vague. Passei pela Sennelier, no Quai Voltaire, e comprei alguns cadernos pretos, de papelão, que uso até hoje para os escritos de ocasião. Na volta, parei na La Palette, onde ele havia me dito que eu devia tomar um Brouilly. Era um pedacinho tão charmoso de Paris, com as lojas de arte, os carros-esporte. E a apenas alguns minutinhos da Shakespeare & Co., a grande livraria de língua inglesa da cidade. Comprei Beginners, de Raymond Carver, obra que também foi publicada sob o título What We Talk About When We Talk About Love. Foi o único livro que li do autor.

Atravessei a ponte mais uma vez, parei num café qualquer para mais uma taça de vinho e aí percorri a Rue de Rivoli, parando na Place de L’Opèra e na fantástica Place Vendôme. O hotel ficava a algumas quadras da Madeleine. Achei a igreja maravilhosa e nem lembrava de tê-la visto na primeira visita. Quando Pedro chegou, fomos jantar e então andamos às margens do Sena, à meia noite. A cada ponte, jovens e belos universitários bebiam diretamente da garrafa, ao lado dos “flics”, gíria francesa para policiais. E eu nem sabia que Paris tinha tantas pontes lindas!

Pedro me mostrou quase toda Paris, a pé. Não fomos a nenhum museu, a nenhuma atração turística, mas comemos e bebemos maravilhosamente bem (recomendo um restaurante em frente à Madeleine, Maison de la Truffe), e andamos, muito. Foram três dias de sol, uma benção para Paris no outono. No meio da tarde, parávamos em um café qualquer para tomar o famoso pastis Ricard. E foi caminhando no Champs Elysées, em direção ao Arco do Triunfo, que conheci a Ladurée, única marca de macarrons de que realmente gosto (e que tem loja lá no JK).

Voltei duas semanas depois, com Amélia. Logo no primeiro dia, fomos ao Café Hugo na Place des Voges,  depois no bar do hotel Ritz — aquele que fica em frente ao Hemingway, que está sempre cheio. Tomamos o drink mais caro de toda a viagem, um coquetel de champanhe de 30 euros. E vivemos uma das experiências mais divertidas e inusitadas: fizemos um verdadeiro book fotográfico no Ritz! Subindo e descendo as escadas, sentadas na poltrona, admirando os quadros. Nem sei como não nos expulsaram dali!

O programa da sexta-feira era o Castelo de Versalhes. O melhor momento foi quando a chuva parou e eles começaram a vender ingressos para os jardins. Eles e suas “grandes eaux” são das coisas de que mais gosto em Paris. Nós passeamos para caramba e temos fotos demais para provar. Havia comprado nossos ingressos para uma peça de Chekov, Tio Vanya. Tinha lido a peça antes de embarcar para a França e estava louca para vê-la em francês. Fomos ao teatro Louis-Jouvet e ficamos muito bem impressionadas, mas o texto era difícil, por isso Amelinha nem aproveitou tanto.

Para terminar a noite, o Polidor. Esse restaurante tem uma história curiosa. Aliás, duas. Uma vem de Hollywood. O lugar ficou famoso depois do filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris. Não sei se ele faz uma menção nominal ao lugar em que o protagonista conversa com Hemingway, mas sei que o restaurante desaparece no fim. Na verdade, ele continua lá, na rua Monsieur Le Prince, 75006, desde 1845. Vale a visita. A comida é espetacular, e como Hugo me disse na época, “ultra-parisiense, sem a fama, ou os preços” de outros restaurantes da cidade. A comida era mesmo fantástica, e a atmosfera, Paris de cima a baixo. A garçonete que nos atendeu tinha uns 70 anos, cabelos curtinhos e loiros, antipática. E o banheiro era turco: um buraco no chão. Achando que havia me enganado, perguntei algumas vezes aos funcionários onde eram os toilettes depois, sem dar jeito, voltamos para o hotel — e que gostoso caminhar e se perder por Paris à meia noite!

Mas vale a pena visitar o Polidor, sempre. Voltei lá em dezembro, com Faffy. A nossa viagem foi diferente, por causa do frio e do meu momento — estávamos em quatro. Já morava há quatro meses em Montpellier, mas não havia me adaptado nem ao frio nem a outros aspectos de minha vida francesa. Mas nós fomos ao Louvre, a bons restaurantes e à Notre Dame. Paris sempre deixa saudades. Até na tristeza.

***

Amelinha me pediu para incluir um dos momentos mais divertidos de nossa viagem, na Place de L’Opèra. Tínhamos comprado um daqueles guarda-chuvas bem sem vergonha, que dificilmente duram mais do que um dia. De repente começou a chover pra caramba, todo mundo buscou abrigo embaixo da Opéra de Paris, e nossos guarda-chuvas se desmantelaram no ar. Fizemos de tudo para registrar este momento com uma foto, mas não houve jeito. A chuva, o evento, todo mundo encharcado. Sempre que lembro desse momento, dou risada sozinha, como imagino que Amelinha também faça.

Literaturas esquecidas, memórias analógicas e outros tempos

Estávamos caminhando para o cinema para ver A Estrada Perdida, quando tiraram esta foto de mim. Era 1997, iniciozinho do ano, havia começado a cursar o primeiro colegial no Pueri Domus da Jacurici (que nem existe mais). Encontrei-a num pequeno álbum antiquíssimo onde guardo até hoje fotos que amigas da Bahia me deram quando mudei para São Paulo.

Hoje resolvi passar na minha antiga casa, lá em Perdizes, para buscar alguns livros. Vinha sentindo falta de vários deles e decidi aproveitar a viagem de Tomás para dar um jeito nessa saudade toda. Primeiro, um passeio pelo bairro. O empório onde comprava pastinhas de queijo e azeitona, chocolates, torradas deliciosas, está menor, tem menos produtos, ficou sem graça. Das duas padarias, uma está igualzinha, meio perdida no tempo. Fui procurar um Lollo — alguém teve a ideia magnífica de relançá-lo exatamente como foi criado — e não tinha. Encontrei-o na outra, mas nem mudou tanto. A academia é a mesma coisa, aí quem mudou fui eu. Não senti nada quando olhei para a piscina, ou subi as escadas. A videolocadora de que gostava tanto, e frequentei assiduamente por anos, estava em reforma, o que me deixou chateada. Descobri meus filmes preferidos no meio caminho entre a Notoriuns e a 2001, e toda sexta-feira, e todo sábado e domingo, lá ia eu ver se tinham lançado um novo filme do Hitchcock em vídeo. Por incrível que pareça, o DVD pertence às minhas memórias analógicas.

Entrando em casa, fui direto para a estante, antes mesmo de cumprimentar meus irmãos. Buscava três livros. Laura y Julio, de Juan José Millás, Mientras Ellas Duermen, de Javier Marías, e o quarto volume dos contos de Maugham. Só encontrei o último da lista. Mas trouxe 52 livros para minha nova casa no Itaim Bibi. Isso mesmo. 52. Achei que voltaria para cá com meia dúzia de literaturas esquecidas mas acabei carregando boa parte de minhas memórias numa mala velha. Não largo do Kindle por nada desse mundo, mas a verdade é que livros em papel são como casas antigas que ainda não vendemos. Não moramos mais lá, mas tampouco alguém mora. Aí um dia abrimos a porta e encontramos tudo do jeito que era antes, se bobear até uma versão mais jovem da gente. Entre os livros, e os cadernos, aquelas narrativas infinitas, encontrei esta foto, totalmente espontânea, tirada numa rua do Itaim. Estávamos, o grupo de Jovens Escritores do Pueri Domus e eu, caminhando para o cinema Lumière que, pura coincidência, fica aqui na esquina. Veríamos naquele início de noite o polêmico Estrada Perdida, que não entendi em absoluto mas despertou em mim a paixão pelo cinema. Três anos depois, descobriria Kubrick, Bergman, Truffaut e muitos outros. Cinco, os anos dourados de Hollywood, e Hitchcock e Billy Wilder. E se naquela tarde eu não tivesse feito aquele trajeto a pé, com aquele grupo, talvez nada disso tivesse acontecido.

Dos livros.

Alguns dos 52 livros merecem nota.

Contos de Amor e Morte, Arthur Schnitzler, que li aos 19, logo que comecei a me interessar por Kubrick — e Freud. Freud dizia que seu contemporâneo era mais avançado que ele no que dizia respeito às mulheres (e sua sexualidade), e eu concordo. Li quase tudo de Schnitzler que chegou ao Brasil de algum jeito naquele ano. Ou no ano seguinte.

Complete Short Fiction, Oscar Wilde. Li a short fiction de Wilde aos 14 ou 15, ainda na Bahia, na nossa casa no Caminho das Árvores, em Salvador. Um livro da Companhia das Letras que minha mãe encapou com plástico para eu levar para a escola. Guardei-o como um tesouro mas, assim que adquiri uma certa independência literária, comprei seu substituto, a versão da Penguin em inglês. O livro tem 13, 14 anos, está caindo aos pedaços, mas não tenho coragem de passar adiante. Ainda.

Homer’s Odyssey, que herdei de minha vó e nunca li, pois nunca consegui ler. A última tentativa foi no Carnaval de 2010, e em algum momento da festa devo ter me dado conta de que não se tratava de um momento propício para esse tipo de leitura. Incrível como nossa história é contada, em igual proporção, pelos livros que lemos e por aqueles que deixamos de ler.

Licks of Love, Updike. Que também não li, mas meu Tio Zeca mencionou o autor ontem ou antes de ontem e achei que estava na hora de iniciar uma nova tentativa.

Eight Stories. Um livrinho caseiro, que fiz para um antigo namorado. Contos românticos e semi-eróticos, todos em inglês, que eu nem sabia falar direito na época.

Beginners, Raymond Carver. O livro ficou famoso bem antes de eu começar a ter vontade de lê-lo. A Companhia das Letras lançou-o por aqui, o título uma tradução de uma das versões inglesas. What we talk about when we talk about love. Mas Beginners ilustra melhor o assunto delicado do livro. Comprei-o na Shakespeare & Co, a grande livraria inglesa de Paris, e li-o num único fim-de-semana.

El túnel, Ernesto Sábato. Primeiro livro que li em espanhol até o fim. Na piscina da antiga casa do meu pai (como aliás li muitos livros), num único domingo de sol.

La tregua, Mario Benedetti. Um de meus livros favoritos em língua espanhola. Recomendado por um amigo que já não conheço mais.

A Room with a View, EM Forster. O livro não marcou tanto quanto a sua compra. Edição caríssima da Penguin, com capa de couro deluxe, era vendido aqui a R$ 200 e eu tive coragem de comprar. Ficou guardado numa caixa todos esses anos. Resultado: está em pior estado que meus paperbacks. Mas não me arrependo.

2666, Bolaño. Este foi talvez o escritor de que mais tentei gostar. Um amigo chileno me recomendou este e muitos outros, dentre os quais Las Putas Asesinas. Festejado, comemorado pelos críticos americanos, Bolaño até hoje figura na New Yorker e na Paris Review mês sim, mês não. E até agora não aprendi a gostar dele.

El Hombre Sentimental, Marías. Um livro roubado. Tomei emprestado na Cultura Española, onde fazia minhas aulas de espanhol, e nunca devolvi. E nunca li, o que é ainda mais vergonhoso.

Decameron, Boccaccio. Para ler e reler, sempre. Talvez o livro mais divertido que já li em toda a minha vida.

The Night of the Iguana, Williams. Amei o filme, e o livro.

Hotel World, Ali Smith. Minha primeira Flip, 2006, meu primeiro namorado mais sério. O livro de que mais lembro é outro, em que a narradora/protagonista começa contando como chegou a existir.

O Tradutor Cleptomaníaco. Nome impronunciável. Veio de brinde e eu me diverti com a possibilidade de, na posição de tradutora, poder fazer a mesma coisa.

Freud.

Marái.

Neil Gaiman. The Graveyard Book. Trabalhando para a Flip 2008, consegui uma prova do livro para o Marcelo Tas ler antes da mesa. Gaiman foi uma surpresa deliciosa. Só tinha lido os Sandman, para um projeto do Pueri Domus. De 2008 em diante, me encantei com seus contos e literatura infantil. Bom amigo até hoje.

Rumi.

Druon.

Sophie Calle.

Eric. Achei um caderno de quando morava na França. Não lembrava mais por que motivo o teria guardado, quando achei i a dedicatória de um amigo bem antigo que só conheci durante 1 ano e meio. Francês, ele havia morado na Grécia e falava grego muito bem. Passei uma semana inteirinha tentando decifrar o que estava escrito. E consegui. Deu saudade da possibilidade, da chance, de conhecê-lo.