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Comentário sobre o Universo (e além)

Jim Holt com uma xícara de café -- que ele tanto aprecia...

Jim Holt com uma xícara de café — que ele tanto aprecia…

Foi uma resenha publicada há mais de seis meses que animou o meu dia hoje. “Why Does the World Exist“, de Jim Holt, foi lançado no meio do ano passado, mas por algum motivo só fiquei sabendo do livro hoje, em uma crítica de Dwight Garner, do New York Times (leia aqui). Depois de dois ou três parágrafos, já tinha certeza de que se tornaria um de meus livros preferidos do ano, e exatamente aquilo que eu vinha buscando. Lembrei na mesma hora de almoços filosóficos com a família, que ainda acontecem às vezes, mas eram muito frequentes há uns 10 anos. Meu pai nos colocava a par das mais recentes descobertas da ciência, das obras mais vendidas de física quântica, e leigos que éramos (e somos), nós retrucávamos em pé de igualdade. Houve uma época da minha vida, talvez dos 20 aos 25 anos, em que só a física quântica ou a sua filosofia muito particular me trazia paz. Minhas ficções emanavam todas de gordos livros de capa dura de cientistas do show biz americano e eu tinha os sonhos mais espetaculares à noite. Uma vez sonhei que conversava com Einstein. E, no dia seguinte, passei a tarde toda com um livro de Richard Feynman, calculando, em distância, o tempo que me separava de um certo homem.

Esse uso arbitrário da literatura científica pode até não ser muito nobre, mas cumpria com o que acredito ser o dever principal da ciência: provocar a imaginação.

Dwight, por exemplo, não é inteiramente elogioso a Holt, mas a verdade é que se diverte inclusive quando parece repreender o hedonismo do autor. E o fato de Holt gostar tanto de descrever suas refeições ou sucumbir sem muita resistência ao champanhe provavelmente o aproxima mais da resposta primordial.

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O blog fez um ano no dia 15 e eu não escrevi um único post comemorativo. Tampouco vim aqui avisar que a Amazon já começou a vender o Kindle Paperwhite — o melhor eReader de todos os tempos, sem sombra de dúvida — aqui no Brasil. É caro — a versão Wifi custa R$ 479 — mas acho que vale a pena para quem não viaja muito. Para quem está curioso, é só clicar no link — os pontos de venda são Ponto Frio e Livraria da Vila.

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Um update rápido sobre os livros — estou lendo Emmas, de Alessandro Baricco, em francês. E gostando demais. O tema do livro parece ser o mesmo de The Sense of an Ending, uma das obras que eu mais gostei de ler nesse ano.

Não consegui terminar The Falls. Ainda.

Meu caso de amor com o Kindle; Halloween; Penguin e Random House

Kindle em suas versões Touch (cinza) e Paperwhite (preto). Os dois são muito bons, mas o novo modelo é ainda melhor, com um sistema de iluminação quase perfeito, uma caixa robusta e resistente, e um touchscreen que funciona bem. Mesmo.

Hoje recebi o meu Kindle Paperwhite, que veio por encomenda, diretamente dos Estados Unidos, quase um mês depois do lançamento do produto em solo americano.

É o meu terceiro Kindle em 18 meses. Comprei o primeiro em maio do ano passado, pouco antes de voltar para o Brasil, numa época em que ia quase todos os dias à Gilbert & Joseph negociar algum valor por algum livro. Desfiz-me de títulos incalculáveis, e outros tantos mandei pro Brasil numa caixa, a um preço abusivo (esses eram livros caros que eu havia levado para a França ou pedido para alguém levar). Livro na França era barato. Já nas primeiras semanas por lá, tinha visto um mendigo, sentado na entrada de uma loja, lendo um volume em capa dura. Que civilização literária!, pensei. Eram tão baratos e tão disponíveis que dava para comprar um livro com o troco do maço de cigarro. Mas, alas, eu não podia levá-los de volta para o Brasil.

As meninas inglesas da universidade andavam com seus Kindles a tiracolo. Resolvi experimentar. Na época, a Amazon ainda nem vendia na França. Encomendei no site, paguei 60 USD a mais e aguardei. Em apenas 4 dias, meu e-reader (Kindle Keyboard) já estava lá. Foi meu companheiro inseparável nas últimas semanas francesas. Fomos juntos para todas as praias, do Languedoc à Riviera, lemos George Steiner e Baudelaire e, chegando ao Brasil, Wilkie Collins. Ele só tinha um probleminha. Quando faltava luz, não dava para ler. Aí o jeito era apelar para os Text-to-Speech e para os Audiobooks (como as palestras de Richard Feynman).

Apresentei o Kindle a Tomás, que gostou da ideia e em novembro de 2011, quando ele viajou para os EUA, encomendei 2 novíssimos Kindle Touch. Primeiro, fiquei decepcionada, por incrível que pareça. Coloquei na cabeça que refletia luz, que não era tão bom, mas assim que me acostumei, nunca mais desgrudei. O Touch era infinitamente superior ao Keyboard. A experiência da leitura tinha se tornado quase íntima de tão próxima, e eu já não precisava me preocupar com mais nada quando estava lendo. Compramos umas mini luzinhas para leitura, que quebravam um galho quando faltava luz, ou quando eu lia madrugada adentro. Depois, compramos capas com luz embutida, que utilizavam a própria bateria do Kindle para funcionar (a bateria dura “quase” para sempre, na cronologia dos bytes), uma libertação.

Estava tão feliz com o Kindle e com a Amazon — que inclusive mandou um Kindle substituto depois que eu manchei o meu na praia — que nem esperava que criassem algo melhor. Aí veio o Kindle Paperwhite.

Ele tem quase o mesmo design do Touch, mas o tato é bem diferente. É mais robusto e bem-acabado, arrojado. Estava receosa quanto ao sistema de iluminação, a tal da built-in light (veja aqui), mas funciona muito bem. E você pode mudar a quantidade de luz na hora em que quiser. Como a Amazon explica no site, a luz reflete sobre a tela e não sobre os seus olhos, então o efeito anti-glare continua valendo. Ele é ligeiramente menor e mais leve, e o primeiro Kindle realmente Touch (não tem nem aquele botão da Home, sabe?).

Como nada é perfeito, a depender da configuração de luz escolhida, aparecem algumas manchinhas na parte inferior da tela. Mas nada que incomode a leitura.

Comprei a capinha de couro junto. Uma surpresa boa. Embora a capa da versão anterior viesse com a luz, era bem ruim. Pesada, com acabamento suspeito, pouco prática. A nova é excelente (veja aqui) e vale a compra. Recomendo!

Agora, para quem quer comprar seu Kindle Paperwhite e não está indo para os EUA… recomendo a Dabee. A Amazon ainda não vende diretamente no Brasil e tudo indica que começará vendendo o modelo mais barato da família. Por isso, melhor garantir. O modelo Wifi — bem mais barato — atende às necessidades de quase todos os leitores. A não ser que você viaje muito, e leia muito em trânsito, e não aguente esperar chegar em casa para baixar o livro, nesse caso (o meu), melhor gastar um pouco mais e comprar a versão 3G.

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Ontem foi anunciada a fusão entre Penguin e Random House. O iG, aqui no Brasil, reproduziu uma matéria da agência EFE (leia aqui), sob o título: “Penguin e Random House anunciam fusão para enfrentar desafio digital“. Ainda lembro das longas tardes que passava em livrarias, procurando as mais novas edições de literatura estrangeira em versão original, e hoje, tudo à distância de um toque…

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Halloween. Acompanhei pelo Facebook alguns vídeos e galerias de imagens de festas muito bacanas. Fiquei triste que não consegui ir a nenhuma. Na época em que eu era adolescente, essas festas estavam restritas a escolinhas de inglês e colégios bilingues. Agora, parece que estão por toda parte. Será o mundo globalizado?

A morte do livro, de novo

Charge publicada no Facebook da Paris Review na última terça-feira, dia 07/08, ao lado de uma frase de William Gibson: É mais fácil prever o futuro do que adivinhar o passado.

O New York Times publicou hoje uma resenha intitulada “A Morte do Livro Através das Eras” (The Death of the Book through the Ages). Ainda não li até o fim, mas recomendo, porque traz à tona um assunto bem importante.

A morte do livro vem sendo anunciada desde o fim do séc. XIX, quando a invenção de Gutenberg já acumulava quatro sólidos séculos. Para produzir meu trabalho sobre o futuro da informação, em 2005, li muitas, mas muitas resenhas e materiais de pesquisa do MIT Media Lab e até hoje lembro com enorme satisfação do ensaio de Priscilla Murphy intitulado Books are Dead, Long Live Books (clique aqui para ler na íntegra).

A ideia vigente no fim do séc. XIX segundo a qual o fonógrafo desbancaria o livro de papel me faz rir até hoje. “‘Uma vez que a leitura cansa facilmente, a fonografia poderia amenizar o cansaço físico [provocado pelas posições exigidas pela leitura] e o arder nos olhos’. Desconsiderando  custo e o peso de fonógrafos, Octave Uzanne estava confiante que eles logo se tornariam portáteis e baratos — e perfeitos para se levar num passeio usando ‘cilindros pequenos leves como canetas de celuloide que armazenariam de 500 a 600 palavras'”.

Uzanne, no entanto, antecipou algumas tendências, ao dizer que a relação entre autor e leitor estava para mudar. “Leitores poderão ouvir a voz do escritor diretamente”, o que é verdade para audiobooks de Neil Gaiman ou Richard Feynman (cujas famosas palestras estão disponíveis para compra no Kindle), e “os homens de letras não serão chamados escritores, mas narradores”. E a ideia de narrativa fica mais a forte a cada dia.

Não concordo totalmente com o ensaio, mas este traz análises e exemplos bem ricos, e preciso dizer que quando penso na morte do livro, lembro logo do artigo.

Sou uma leitora inveterada de Kindle (ou uma leitora Kindle inveterada?), e acho que a versão ebook só tem vantagens em relação ao papel (veja abaixo). Mas o livro de papel não vai acabar, mas não vai mesmo. Continuarei a comprar livros em papel para determinadas ocasiões. E em alguns países, o papel persistirá por um bom tempo.

Na França, por exemplo, onde a tradição da leitura percorre trens, praças, cafés, jardins e calçadas (um dos famosos mendigos de Montpellier lia todos os dias pois os sebos de lá vendem títulos a 20 centavos de euro), todo mundo lê em papel, quer dizer, menos os estrangeiros, que têm sempre um Kindle a tiracolo. A Amazon começou a vender seu eReader por lá há vários meses, e ainda que os grandes clássicos estejam disponíveis para download gratuito em versão Kindle desde o início de 2010 (trabalho de digitalização feito por uma comunidade de leitores), o eReader parece não vingar.

No Brasil, o problema é outro. Muita gente já lê em iPad e iPhone (bem caros, diga-se de passagem), mas para alcançar a maior parcela da população, seria necessário uma mudança de mentalidade. Tem gente que acha que livro eletrônico é mais caro que livro em papel. Não é. O problema é que aqui no Brasil nem temos sebos que vendam a R$ 0,20 nem gente que digitalize os grandes clássicos em escala. Ainda assim, dá para pensar num futuro melhor, com tablets subsidiados pelo governo, formato digital integrado, e leitores, seja em papel ou na tela.

O ereader é mais barato

Isso mesmo, paga-se o Kindle comprando uma média de cinco livros de papel (os lançamentos das editoras brasileiras são vendidos a R$ 40 em média), e depois a faixa de preço varia entre 2 e 10 USD, o que não chega à metade do preço de um livro aqui.

Mais confortável 

Pois é. Só não sabe disso quem nunca leu num Kindle Touch. Tinha o Kindle Keyboard e achava muito bom, mas o Touch é excelente, não reflete luz, e é mais confortável para se ler em qualquer lugar (talvez as posições da leitura tradicional realmente não sejam confortáveis).

Mais prático

Em vez das 600 palavras previstas por Uzanne, o Kindle Touch armazena mais de 3 mil livros. Isso mesmo.

Mais leve

Não são canetas de celuloide, mas tablets bem compactos que pesam umas 200g. O peso de um livro de 200 páginas ou mais leve.

Posts relacionados:

Amazon (+consumidor) x Apple, editoras, livrarias etc – aqui discute-se se a atuação da Amazon neste mercado vai levar os outros players à falência

O livro está morto. Viva o livro!

Outros links:

Objetivo do Kindle é reinventar o livro, afirma VP da Amazon no Brasil – reportagem sobre a palestra de Russel Grandinetti que aconteceu hoje na 22a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

A Amazon disse que não há previsão para vender o Kindle no Brasil. Mas você não precisa esperar: compre-o hoje mesmo pela Dabee.

Caos e ficção

Ilustração da curvatura do espaço-tempo disponível em página da Wikipedia (propriedade da Wikimedia Commons)

Comecei a gostar de ficção científica porque me interessei por física quântica, no comecinho de 2005, quando a literatura quântica com base filosófica invadiu as livrarias. Lembro até hoje do primeiro livro, The Fabric of the Cosmos, de Brian Greene, o primeiro cientista-celebridade de tantos que viriam depois. Comprei a edição mais baratinha, da Penguin, e a letra e as figuras eram tão pequenas que não consegui passar da metade. Mas ali estava um assunto que havia me fascinado desde a infância, desde uma tarde remota na casa de Tacimirim, quando me debrucei sobre a obra famosa de James Gleick.

Devia ser 93 ou 94, Caos tinha sido lançado há uns cinco anos e já estava surrado. Meu pai, meu grande ídolo até hoje, tinha as versões original e em inglês, em casa e em Taci, e sugeriu que eu lesse o livro. Ele já havia me presenteado com histórias fantásticas como o Homem Que Calculava, de Malba Tahan, as Mil e Uma Noites e uma porção de livros sobre dinossauros. Mas não li Caos depois daquela tarde, nem procurei pelo livro. Lembro de ter ficado com medo, como se alguém tivesse dito de repente que o universo de verdade era outro, escondido, incompreensível. Por muitos anos rejeitei a ficção científica. Não participei da euforia por Star Wars ou Star Trek ou Alien, e até Jurrasic Park me deixava apavorada. Mas, pior do que isso: eu não me interessava pelos livros que meu pai devorava no fim-de-semana, era como se a minha literatura e a dele fossem distintas, ainda que eu, cheia de admiração, fosse ler em seu cantinho especial sempre que podia. E se eu escrevia, meus textos eram terrenos, quase aborrecidos, e eu tinha certeza que ele nunca os aprovaria como um todo.

Não sei se a ficção me decepcionou parcialmente, ou se estava mesmo entediada com tudo, mas em 2005 essa ficção da ciência, apresentou-se novamente para mim como um outro universo, que eu não entendia em absoluto mas, olha, era possível. E as possibilidades abertas pelo avanço da física quântica eram tão amplas e tão deliciosas que eu podia encará-las como ficção. E daí meu projeto de conclusão de concurso ficou sendo sobre o futuro da informação. Foi um ano inteiro [sub]imersa nas literaturas de Google, Richard Feymann, Lee Smolin, H.G. Wells, Bruce Sterling — que tive o prazer de entrevistar diversas vezes — absorvendo a máxima de John Wheeler: IT FROM BIT, toda existência vinha de uma só coisa, informação.

Lembro de ligar uma vez para meu pai, no meio da noite, para perguntar por quê mesmo o teletransporte ainda não era possível, ou de nossas conversas no meio do almoço, a família toda reunida no Dolce Villa, eu comendo aquele hamburger de javali, sobre o código cerebral descoberto por uma equipe do MIT segundo o qual pensamos em 1, 0 e -1 e é isso que nos permite ignorar tanta informação.

Nem o excesso de citações nos livros de Michio Kaku, nem o culto a Lisa Randall (como se a beleza fosse algo incompatível com o intelecto), nada me tirou desse caminho mais. Não consegui ler o último capítulo de Quantum Gravity, de Lee Smolin, mas volta e meia releio o início. E foi naquela época que comecei a escrever uma novela sobre o tempo. Meu pai acompanhou passo a passo, dando dicas sobre enredo e personagens. Já tem mais de cem páginas e talvez eu a retome algum dia. A verdade é que a ficção científica acabou se tornando um abrigo desse mundo tão difícil. É como se eu tivesse voltado para a família, para casa, como naquele texto tão bonito de Ray Bradbury que comentei aqui outro dia. Take me Home.

Nota pós publicação: quando fui pesquisar o nome do autor de Caos, descobri que é também autor de The Information: A History, A Theory, A Flood publicado recentemente e já disponível no meu Kindle. A versão em Português será publicada pela Companhia das Letras, com tradução do amigo Augusto Calil.