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Só depois de desconectar

Esse post vai ser bem rápido: só para compartilhar o excelente artigo de Evgeny Morozov publicado na New Yorker de 28 de outubro (que só chegou para mim outro dia). Foi o texto mais inteligente sobre conectividade e tédio (que também já foi chamado de ócio criativo) e dar sentido ao nosso dia-a-dia cheio de distrações deliciosas. Morozov, cujos textos vou acompanhar bem de perto a partir de agora, começa falando de Siegfried Kracauer, que receitava o bom e velho tédio para nos reunir com nossas mentes. E o tédio em tempos tão modernos pode tomar formas interessantes…

O artigo só está disponível para assinantes aqui, mas dei um jeito de publicá-lo em PDF para que todo mundo possa ler: Only Disconnect, de Evgeny Morozov.

Para quem se interessa mesmo pelo assunto, o livro The Distraction Addiction, de Alex Pang, foi muito bem-recomendado e eu já comecei a ler.

A janela de Javier Marías; Free New Yorker App

Capa do livro Mientras Ellas Duermen, de Javier Marías. Edição da Anagrama

Meu primeiro contato com Javier Marías aconteceu nas aulinhas de espanhol, há uns 5 anos, lá na Cultura Española da Al. Santos. A professora nos apresentou um texto incompleto e pediu que criássemos um fim. Tratava-se na verdade de um capítulo do livro Corazón tan Blanco, um dos mais famosos do escritor. Um homem em lua de mel olha pela janela do hotel e vê uma mulher, de salto, gesticulando progressivamente, com o dedo em riste apontando para a janela dele. Os outros três alunos escreveram sobre o possível encontro entre os dois. Na minha história, no entanto, a mulher se dirige ao quarto ao lado e mata o hóspede vizinho. O homem a vê fugindo pela escada mas eles nunca têm qualquer interação. No original de Marías, também, o homem procurado não é ele, é um engano do início ao fim, e o protagonista ouve uma briga de casal, que trará consequências para o seu próprio casamento.

Apaixonei-me por Marías. Comprei quase todos os livros dele. El Hombre Sentimental, Mañana en la Batalla Piensa en Mí, Todas las Almas, Negra Espalda en el Tiempo e, principalmente as coletâneas de contos Cuando fui Mortal e Mientras Ellas Duermen. Gosto dos contos mais do que tudo. Como em Corazón, em Mientras ellas Duermen, há também um turista e uma janela e alguém que ele observa. Neste caso, um casal, uma jovem linda de seus 20 anos e um homem de meia idade gordo. O turista acompanha-os com os olhos, interrogando-se sobre quem são e o que fazem ali, e por que aquele homem gordo insiste em registrar cada movimento da menina. Depois, ele encontra o homem à beira da piscina e descobre que estão hospedados no mesmo hotel. Enquanto elas dormem, eles conversam e algumas revelações são feitas. A curiosidade do turista não o deixa interromper a conversa, nem mesmo quando a sua própria mulher aparece na janela, com uma expressão de terror.

Posso dizer que essa janela e esses personagens acompanharam toda a minha vida de leitora, escritora e turista. E quando no ano passado meu pai voltou da viagem de Cannes com uma foto de dois locais no momento em que cruzam a rua,  pensei: “é a janela de Javier Marías”. Toda noite, ele ia para a janela com a sua câmera e começava a fotografar. Acho que nem ele entende direito por que gosto tanto da foto, nem mesmo depois de eu contar a história de Mientras ellas Duermen. A foto servirá de capa para meu livro no Kindle e pode ser vista aqui.

Para os que quiserem ler Marías, a Alfaguara e a Anagrama publicam em espanhol. Em inglês, a Penguin acaba de anunciar nova coleção. E na Amazon.com, você pode encontrar a versão ebook de vários dos livros — mas apenas em inglês.

Curtas:

A New Yorker acaba de anunciar seu aplicativo gratuito para iPhone — disponível mesmo para aqueles que têm conta Apple brasileira, como eu. Ainda está com alguns bugs — sou assinante e até agora não consegui logar — mas recomendo muito, principalmente para aqueles que não são assinantes. Edição atual tem download de graça. Para saber mais sobre isso, é só entrar no link abaixo.

New Yorker App disponível para download no iPhone – grátis!

Narrativas: A literatura dos contos de fada

A bruxa prova maçã da Branca de Neve na foto publicada na reportagem da New Yorker de 23 de julho

Um post bem rápido. Hoje recebi a New Yorker de 23 de julho — sim, as revistas têm chegado nos dias mais obtusos — e adorei uma das reportagens, Once Upon a Time, de Joan Acocella. Crítica de dança, ela escreve sobre vários assuntos e eu gosto de quase tudo o que escreve. Seu livro mais recente, 28 Artists and 2 Saints, está disponível para venda no Kindle e pode ser o próximo da minha lista. (Sinceramente, estava mais interessada em ler outro dela, Creative Hysteria, mas este só em papel).

Vale a pena ler o texto. Ela revisa a literatura dos contos de fada, das versões mais famosas às críticas mais conhecidas. Já li Grimm várias vezes, mas desconheço alguns dos contos violentos a que ela faz referência — como The Juniper Tree and The Stubborn Child. Li um pouco de Perrault também e adoro Angela Carter, que provavelmente ficaria entre os contos de fada literários — E.T.A. Hoffmann, Andersen, Perrault — e os contos de fada originados com a tradição oral. Em 2010, logo antes de ir para a França, mergulhei em Bettelheim, li e reli The Uses of Enchantment (aqui no Brasil conhecido como a Psicanálise dos Contos de Fada), além de todos os ensaios freudianos publicados na New Yorker. São excelentes. Com a viagem, acabei conhecendo Ms Carter, cujo The Bloody Chamber não sai de minha prateleira dos favoritos — mistura de sexo, fantasia e curiosidade feminina sem limites. Fiquei tão impressionada que na época perguntei a dois amigos de origem inglesa se conheciam a escritora. Um tem todos os livros autografados e frequentava a sua casa. O outro é escritor, tinha amigos em comum com ela, mas nunca a conheceu. Mas foi ele, Neil Gaiman, que escreveu Snow Glass Apples, talvez meu conto de fada literário preferido, que pode ser lido em sua coletânea de contos Smoke and Mirrors.

Embora compreenda o valor psicanalítico dos contos, nunca havia pensado pelo lado “alemão”. Agora deu mais vontade de aprender a língua.

Narrativas científicas

Conto de Jennifer Egan, confirmada para a Flip deste ano, publicado na edição especial de ficção científica da revista New Yorker

A edição de 4-11 de Junho da New Yorker é todinha sobre ficção científica. Traz contos de Jennifer Egan, Junot Díaz, Sam Lipsyte, Jonathan Lethem, etc, e relatos em primeira pessoa de Ray Bradbury, William Gibson, Anthony Burges (autor de Clockwork Orange e de quem fui fã por muito tempo), Ursula K. Le Guin, China Miéville, Margaret Atwood, Karen Russell.

Jennifer Egan participará da programação principal da Flip 2012, com mesa 11 confirmada para 12h, no sábado dia 07 de julho. A conversa é com Ian McEwan, e embora os ingressos para a Tenda dos Autores estejam esgotados, a Tenda do Telão é uma opção (compras na Tickets for Fun ou durante a Flip, em Paraty).

No conto, Black Box, no sul da França, os homens são Designated Mates e as mulheres, beauties. E espiãs de algum lugar da América são enviadas para segui-los, satisfazê-los e gravar todas as conversas que possam ter, através de uma extensão eletrônica do corpo orgânico. Quando as mulheres cedem aos desejos dos homens, acionam a chamada Dissociation Technique, em que alma e corpo se dissociam, e a mulher só retorna ao fim do ato, dizendo-se sempre: “Lembre-se de que se trata de um sacrifício por sua pátria e você não está sendo paga por este trabalho”. Ao fim do conto — ainda não decidi se gostei ou não — a técnica dissociativa entra em cena outra vez, mas numa situação muito diferente.

Gosto, especialmente, da narrativa de Bradbury (grande autor de sci-fi, falecido em 06 de junho — aqui, A Man Who Won’t Forget Ray Bradbury, texto de Neil Gaiman publicado no site do The Guardian sobre o escritor). Não posso dizer que já li muita coisa dele, mas é o tipo de escritor que volta e meia reaparece na minha vida — comecei a gostar de ficção científica há pouquíssimo tempo, em 2004-2005 provavelmente, quando fiz meu projeto de jornalismo sobre o futuro da informação. Em Take Me Home, que mal ocupa uma página, ele volta à primeira fase de sua paixão com a ficção científica e conta qual foi a inspiração para um de seus contos, The Fire Balloons, infelizmente indisponível eletronicamente — quem sabe um dia todos os livros estarão no Kindle…

When I look back now, I realize what a trial I must have been to my friends and  relatives. It was one frenzy after one elation after one enthusiasm after one  hysteria after another. I was always yelling and running somewhere, because I  was afraid life was going to be over that very afternoon.

Impossível escolher um ou outro trecho, pois são todos muito bons: “I would go out to that lawn on summer nights and reach up to the red light of  Mars and say, ‘Take me home!’ I yearned to fly away and land there in the  strange dusts that blew over dead-sea bottoms toward the ancient cities“.

E então ele conta como a relação com o avô foi costurando a fantasia sci-fi e 25 anos depois, escreveu uma história que era na verdade um tributo a “essas noites com o avô”. A literatura sci-fi só entrou na minha vida muito tarde, mas lembro-me de dias, noites, na casa de praia de minha vó, andando pela praia e pedindo que um avô imaginário me ajudasse a conferir algum sentido a tudo o que estava ao meu redor.

Leituras irresistíveis

Nada mais gostoso do que ler no Kindle em Taci

Recebi hoje minha New Yorker de 28 de maio, um atraso danado. Mas o ensaio Easy Writers de Arthur Krystal, é delicioso e vale a leitura (infelizmente é necessário comprar a edição ou já ter a assinatura para ler). O campo de investigação é muito bem definido: o que seria de nós, reles mortais, sem a literatura fácil, a “genre literature”. Nenhum leitor que se preze vive só de alta literatura. E cada um tem seu escritor das horas difíceis ou tediosas — no meu caso, P.G Wodehouse acaba com qualquer tristeza e Agatha Christie, com qualquer tédio. E não resisto ao magnífico Georges Simenon, para muitos o único “escritor” do gênero policial — e uma das grandes delícias de se conhecer o idioma francês.

Mas muitos dos escritores fáceis de antigamente são hoje respeitados — Somerset Maugham, que aos 23 anos já vivia da literatura e escreveu um excelente conto sobre uma escritora adorada pela crítica: não ganhava um tostão e vivia às custas do marido até ser abandonada por ele. E é então que ele lhe dá um grande conselho: “Ora, por que você não escreve histórias de detetive? A crítica vai adorar ter uma desculpa para ler o que quer, e as massas finalmente cederão a seus livros”. E assim ela fica rica*.

Recentemente sucumbi a Stieg Larsson e adorei. Não tem nada melhor do que um livro gostoso para substituir as horas incontáveis na frente da TV ou os devaneios sem fim de um domingo de solidão.

*: Para descobrir qual o nome do conto, é só dar uma espiada no 2o post do dia…

Camus, um francês estrangeiro

Albert Camus por Henri Cartier-Bresson

Ontem recebi a minha primeira New Yorker na casa nova. A revista está deliciosa. Tem conto sobre pornográfos literários, texto sobre o futuro da procriação e uma crítica de Albert Camus que começa assim:

O romancista e filósofo francês Albert Camus era um homem bonito demais por quem as mulheres se apaixonavam perdidamente — o Don Draper do existencialismo.

Já disse aqui que só fui ler L’Étranger em julho passado, quando Tomás me emprestou o livro. Aí descobri que em vez de chato era deliciosamente absurdo. Nem O inferno são os outros soou tão forte quanto o Cela ne veut rien dire, e por algum motivo o Camus literário era mais atraente que Sartre — qualquer Sartre.

Na crítica, além de compará-lo a Bogart (fisicamente), Adam Gopnik divaga sobre a sua condição de estrangeiro: “Na América, Camus é, antes de mais nada, francês; na França ele permanece, mais do que tudo, algeriano”.

Pois é aí que discordo. O nacionalismo francês tem um limite muito bem-definido, a arte. Na Universidade de Montpellier ouvi falar várias vezes de Chopin ou Van-Gogh como franceses. Beckett, Derrida — outro franco-algeriano, Ionesco, estavam todos do lado direito da biblioteca universitária, isto é, na secção que abrigava a literatura e o pensamento nacionais (Beckett conseguia se estender por toda a biblioteca e algumas de suas obras ficavam escondidas numa sala especial, com uma funcionária dedicada que levava uns 15 minutos para achar o livro e trazê-lo para você). E numa de minhas primeiras aulas, a professora de Expression Écrite veio me perguntar se já tinha publicado (tinha, mas na escola, e aí não conta). E então me disse, enfaticamente: “Você poderia escrever em francês”.

Ora, se eu poderia…

Não me Abandone Jamais (Never Let Me Go)

Vi o cartaz de Não me Abandone Jamais (Never Let me Go) pela primeira vez na França, há mais de um ano. Depois de ler a resenha e a crítica, negativas, desisti de ver o filme. Mas há poucos dias um amigo veio me dizer que tinha lido o livro no início do ano e era bom, e muito triste. Contou-me também que era do mesmo autor de Vestígios do Dia (The Remains of the Day) filme que vi há mais de 15 anos numa tarde chuvosa, no meu quarto, em Salvador. Na época não entendi muita coisa, mas os movimentos de Anthony Hopkins e Emma Thompson causaram uma impressão que guardo até hoje, de um tempo prolongado no espaço e de um espaço muito, muito inglês.

Embora viva há muitos anos na Inglaterra, Kazuo Ishiguro não é inglês. Ele então se encaixa naquela categoria de autores estrangeiros cuja língua materna não é a primeira língua, ou que têm mais de uma língua nativa, e que nunca pertencem totalmente a um lugar ou a uma cultura (isso me lembra o melhor conto que já li na New Yorker, Sweetheart Sorrow, do tradutor David Hoon Kim). Comecei a ler o livro no mesmo dia e terminei hoje, pela manhã, a caminho do trabalho. A narrativa fluida e ao mesmo tempo interminável de Kathy lembrou-me muito o tempo do filme com Anthony Hopkins. E não consegui parar de ler (aviso de spoiler: se você ainda não leu o livro nem viu o filme, melhor parar por aqui).

Por isso, nesses últimos 3 dias, vivi apenas parcialmente na realidade, com um sentimento muito forte de “danação”. Porque, como os “estudantes” de Hailsham, nós estamos todos condenados. Mas senti tudo de forma muito particular. Porque, como Kathy, tive minha Hailsham. E depois de ter ocupado a posição de estudante numa escola como aquela, fui parar no meu “Cottages”, em São Paulo, e de repente tinha liberdade suficiente para ir a Norfolk, mas não fazia muito mais do que isso. As tardes de devaneio e de solidão, a necessidade de me agarrar a alguém ou a algo estavam presentes desde Hailsham, mas agora haviam se tornado clandestinas. E quando os personagens se perguntam se tudo aquilo valeu a pena, toda aquela fantasia, aquela ignorância parcial, as leituras e discussões sobre James Joyce, as poesias que faziam para a Galeria ou os desenhos tão minuciosos dos animais imaginários (para mostrar como eram por dentro, que tinham alma), tenho certeza que sim. Sem a fantasia, seria impossível viver na realidade… e é o fato de estarmos condenados que nos torna tão humanos.